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Expedição "As Araucárias" cruza a Transamazônica
| Texto: Felipe Campelo / Gazeta do Povo |
Jipeiros de Curitiba partiram em direção à selva amazônica. |
Pontes precárias, atoleiros quilométricos e trechos de mata densa. Para piorar, calor e umidade intensos, insetos, jacarés, onças, cobras e aranhas. Se para muitos esse ambiente é o último lugar do mundo que gostariam de estar, para um grupo de curitibanos foi o cenário ideal e inesquecível durante 28 dias.
Trilheiros de carteirinha, o cirurgião-dentista Thiago Brusamolin (23 anos), a psicóloga Sandra Costa (44), o engenheiro Felipe Campelo (62), o médico Sérgio Pitaki (52), os empresários Marcelo Machado (28) e Verner Maia (29) e o estudante André Dufour (16) decidiram encarar a bordo de dois Troller e um Land Rover 110 a desafiadora Rodovia Transamazônica, terceira mais longa estrada do Brasil, com 2300 km.
Para aumentar a adrenalina, principal combustível do off-road, o período escolhido foi entre dezembro e janeiro, justamente o auge das chuvas na região. Por não ser pavimentada, o trânsito na rodovia é quase impraticável nessa época do ano, o que significa transpor obstáculos e dificuldades encontrados em pouquíssimos lugares do mundo. "É uma estrada abandonada. Levamos 3 dias e 2 noites para percorrer 680 km", relata Brusamolin.
Os aventureiros partiram de Curitiba no dia 20/12/2008. A "Expedição As Araucárias", como foi batizada, tinha pela frente cerca de 10 mil km entre ida e volta, cruzando 8 estados. Como era esperado pelo grupo, a viagem foi marcada por alguns problemas mecânicos, como cabeçote fundido e quebra de suspensão devido aos inúmeros buracos. "Além de resolver o nosso problema, ajudamos muitos carros e caminhões atolados entre Mato Grosso e o Pará. Algumas pessoas estavam de 3 a 4 dias sem água e comida", conta Machado.
Se não bastasse os obstáculos naturais, os curitibanos tiveram que superar também a animosidade de algumas tribos indígenas no Amazonas e no Amapá. "Tivemos que fazer um desvio por causa de uma ponte derrubada por índios, passando por algumas reservas indígenas onde tínhamos que pagar ‘pedágio’ a nativos não muito amigáveis", recorda Machado.
A precária condição da Transamazônica acabou encurtando a viagem de dois dos três carros da expedição. "O sistema de tração da roda dianteira ficou comprometido. E no barro, sem tração é impossível seguir em frente", diz Brusamolin, que ao lado de Machado, deu sequência à epopeia na selva. Outros 5 integrantes acabaram retornando de avião de Manaus. Os "sobreviventes" puderam assim contemplar a beleza dos encontros das águas do Rio Negro com o Rio Solimões, que formam o Rio Amazonas. Passaram também 8 dias acampados no carro em cima de uma balsa sob sol de 49ºC. "Fizemos muitos amigos e fomos recebidos em várias cidades pelos jipes clubes locais", ressalta Brusamolin. "Lá para o Norte o povo tem uma vida sem muitos recursos, sobrevivem apenas com menos do necessário, mas estão sempre dando risada", comenta Machado.
Felipe Campelo idealizou este projeto em maio de 1991, e desde 1994 vem levantando informações e planejando cuidadosamente esta expedição. Até 2008, apenas 26 expedições cruzaram o trecho, sendo uma delas a Expedição Transamazônica.
Diário de bordo (por Felipe Campelo)
(passe o mouse sobre o ícone e aguarde carregar a foto)
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20/12/2008
Saimos de Curitiba (PR) às 10:40 do início da BR 277 (Ponte do Parque Barigui) em um Troller 2.5 com Sandra Costa / Thiago Brusamolin, outro Troller troller 3.0 com Sergio Pitaki / Andre Dufour e uma Land Rover Defender 110 com Marcelo Machado / Verner Maia / Felipe Campelo. Buscando percorrer 730 km para chegar em Bataguassu (MS), fizemos o feito em 11h05min, com consumo médio de 11,8 km/l com o Troller 3.0, 11,3km/l com o Troller 2.5 e a Land Rover com 7.9 km/l. Chegamos todos felizes e por termos passado por um dia tranqüilo, resolvemos seguir em direção à Campo Grande (MS), onde exatamente no quilômetro 85 da rodovia BR 267, a Land Rover parou por problemas de aquecimento por falta de água no motor, resultado de uma mangueira rompida. A Land foi rebocada pelo Troller 3.0 até um local seguro: um posto de combustível no quilômetro 93 da rodovia. Marcelo acionou a seguradora que providenciou um caminhão plataforma para transporte do veículo até Campo Grande. Com a notícia de que nosso socorro chegaria às 05:00 hs, resolvemos montar acampamento por ali mesmo, aonde alguns pernoitaram nos carros, outros em barracas e alguns no chão.

- 21/12/2008
Às 05:30 hs a Land Rover foi carregada no caminhão plataforma para seguir em direção a Campo Grande, enquanto os membros da equipe levantavam de suas barracas e seus carros, para seguirem viagem. Chegamos em Campo Grande (MS), onde entramos em contato com jipeiros da cidade. O jipeiro César nos indicou o mecânico Ney, que nos atendeu prontamente desde às 10:00 hs, quando chegamos na cidade. Enquanto alguns membros da equipe acompanhavam o concerto da Land, (na oficina do Ney) outros aproveitaram para fazer suas compras (de itens esquecidos na partida). Ao entardecer, o problema estava resolvido, e os veículos prontos para seguir viagem no dia seguinte.

- 22/12/2008
Saímos às 6:15 hs de Campo Grande (MS) com o objetivo de chegarmos em Peixoto de Azevedo (MT), mas por problemas de comunicação entre os veículos fomos obrigados a parar em uma oficina especializada, gastando 2 horas na reparação do jipe. Considerando o tempo perdido, acidentes na estrada, alto fluxo de caminhões e veículos pequenos, acabamos optando por parar às 21:30 hs em Jangada (MT). Esse trajeto de 780 km foi percorrido pela expedição sem nenhum problema nos veículos, principalmente na Land Rover que está com cabeçote novo no motor. Ela por estar transportando todos os equipamentos e acessório para transpor os obstáculos de nossa rota fez uma media de consumo de 6,2 km/l. A equipe esta totalmente integrada e com grande expectativa para chegar o começo do trecho com muita lama, que é de Guarantã do Norte (MT) em diante. Nossa idéia para amanhã é sair bem cedo em direção à Peixoto de Azevedo (MT).

- 23/12/2008
O nosso dia começou às 06:30 hs saindo de Jangada (MT), com destino à Guarantã do Norte (MT). O percurso deste dia foi o último do deslocamento, durando 11h15min, com 670 km, totalizando 2490 km de deslocamento. Em função do vento na direção contrária ao deslocamento da Land Rover, que está com peso excessivo, o consumo de combustível gira em torno de 6,9 km/l de diesel, tendo tendência a piorar, devido ao início da aventura propriamente dita, o que está preocupando a equipe do veículo. Já o Troller 2.5, está consumindo em torno de 11,6 km/l e o Troller 3.0, 10.5 km/l. A paisagem do dia iniciou com plantações imensas, e terminando em floresta, algo que criou a sensação de início da grande floresta de interesse mundial para todos os membros da expedição. A noite de hoje está sendo utilizada para a reorganização dos carros, para o início do trecho de lama da Rodovia 163, divisa do Mato Grosso com o estado do Pará (o início tão esperado).

- 24/12/2008
Saímos de Guarantã do Norte (MT) às 06:45 hs e após percorremos 243 km, chegamos às 21:12 em Novo Progresso (PA). Ontem à noite e hoje de manhã na saída, tivemos o apoio do Jeep Clube de Guarantã do Norte. Saímos com muita chuva e com a esperança de encontrarmos lama, mas encontramos um piso muito duro com poucos trechos de chão batido aonde não foi necessário acionar a tração 4x4. O veículo Troller 2.5 apresentou problemas na suspensão traseira com pouco curso nas molas e problemas mecânicos no diferencial dianteiro quando testado para uma eventual utilização. A expectativa do grupo está aumentando a cada quilometro rodado no aguardo de dificuldades. Pernoitamos no hotel da cidade, aonde encontramos um brasileiro fugindo da crise americana com uma camioneta F-150 vindo de Miami (EUA) e uma família da Venezuela que vinham conhecer o Brasil. Jantamos e comemoramos o Natal na pizzaria do centro da cidade.
- 25/12/2008
Nosso destino hoje é Itaituba (PA). Saímos de Novo Progresso (PA) às 06:45 hs e percorremos 415 km até a balsa que atravessa o rio Tapajós que beira a cidade de Itaituba PA. Chegamos exatamente às 21:50 hs na balsa. Novamente tivemos que redistribuir as bagagens do veículo Troller 2.5 e na Land para melhorar a dirigibilidade do Troller 2.5. A paisagem nesse trecho é muito bonita por observarmos uma mata muito densa que muitas vezes nos levava a parar os veículos para fotografar e ouvir o som da floresta. Esse trecho é de chão batido variando com trechos de pedras pontudas que possibilita uma velocidade média de 70 km/h na maior parte do percurso, mas se chovesse o piso se tornaria extremamente escorregadio baixando a velocidade média para cerca de 30 km/h. Esse dia não havia trânsito de veículos por se tratar do dia de Natal, o que nos proporcionou dirigir com tranqüilidade quanto a pista, mas com preocupação quanto ao auxilio se caso necessário. Fomos obrigados a fazer a manutenção na Land por rompimento das buchas da suspensão dianteira. Aproveitamos esse tempo para apreciar a natureza e tirar fotografias. Chegamos no entroncamento da rodovia BR-163 com a BR-230, Transamazônica, conhecida mundialmente. No caminho, às 21:10 hs, encontramos dificuldades de direcionamento em uma rotatória sem sinalização.
- 28/12/2008
Não tivemos contatos nos dias anteriores por falta de energia elétrica em certas regiões, como também de conexão de Internet e telefonia. Saímos de Apuí (AM) em direção a Humaitá (AM) às 07:00 hs da manhã. No trajeto, encontramos uma ambulância com a caixa de câmbio quebrada. Demos carona para o motorista até o quilômetro 180. Durante o trajeto, o motorista nos informou que havia uma ponte caída que não nos permitiria cumprir o roteiro. A 150 km de Humaitá, entramos à esquerda na fazenda Vista Alegre, para fazer um contorno via Machadinho D’Oeste e Porto Velho, para chegar até Humaitá. Este pequeno desvio nos custará 966 km, passando pela reserva indígena (foto). Tivemos que dormir ao lado de um atoleiro, aonde existiam vários caminhões que transportam combustível para as pequenas cidades da região.

- 29/12/2008
Acordamos cedo, noite ainda, levantamos acampamento, verificamos a área do grande atoleiro e fomos os primeiros a passar e seguimos viagem, sem poder ajudar ninguém pois eram somente caminhões pesados. Começaram os problemas nos veículos. A Land Rover com barulho na suspensão traseira, um Troller 2,8 com suspensão traseira batendo e o Troller 3,0 com superaquecimento. Tomamos a decisão de alguém seguir à frente para providenciar mecânico em Porto Velho (RO). Chegando a Porto Velho entramos em contacto com a diretoria do Jeep Clube que prontamente através do seu presidente, o Beto, trouxe um "super mecânico amigo jipeiro", também do Jeep Clube para nos auxiliar. Fomos bem recebidos e jantamos juntos para comemorar nossa chegada em Porto Velho. Após o jantar fomos para um hotel.

- 30/12/2008
Levantamos cedo e fomos para a oficina fazer a revisão dos veículos. Passamos o dia inteiro na oficina com o amigo conhecido vulgarmente como "Cenoura". Os carros estão prontos para iniciar o nosso grande desafio, que é também de muitos jipeiros: Humaitá a Manaus. Uma certeza nós temos: vamos passar o Ano Novo na maior floresta do mundo. Feliz Ano Novo a todos!!!
- 05/01/2009
Chegamos em Manaus (AM) às 20:30 hs do dia 02/01/2009 e fomos recepcionados pelo presidente do Jeep Clube de Manaus, Sr. Rogério, que nos auxiliou em nossas atividades. Estávamos exaustos devido ao acumulo de muitas emoções sentidas nos últimos 640 km da temida rodovia BR-390. São diversas as histórias de onças, cobras, assaltantes, etc... Atingimos nosso objetivo qual seja a chegada em Manaus (AM). Em função dos atrasos, temos algumas opções de retorno que estão sendo estudadas por todos:
1) Voltar de avião e despachar os veículos por carreta cegonheira;
2) Voltar de balsa até Porto Velho e despachar os veículos de Porto Velho para Curitiba;
3) Seguir em balsa até Santarém e dirigir os veículos até Curitiba.
Enquanto isto, vamos curtir Manaus.
- 07/01/2009
Dormimos confortavelmente em um bom hotel. Alguns integrantes da equipe levantaram cedo no dia 03/01/2009, como sempre, e outros aproveitaram para descansar mais. Neste dia (03) completamos nosso 15º dia de viagem e às 10:00 hs nos reunimos com o Sr. Rogério, presidente do Jeep Clube de Manaus para nos auxiliar na escolha da melhor opção de retorno. Caso continuássemos seguindo a programação inicial, iríamos chegar em Curitiba com 5 dias de atraso (isto é, se não surgissem outros imprevistos), o que não será possível pois temos compromissos profissionais na segunda-feira dia 12/01/2009. À tarde, o pessoal foi averiguar os custos de cada alternativa:
1) Passagem aérea de Manaus à Curitiba variando de R$ 1.069,00 à 1.312,13 por pessoa;
2) Transporte em carreta cegonheira de Manaus à Curitiba variando entre R$ 1.900,00 à 2.500,00 por veículo;
3) Transporte em balsa de Manaus à Porto Velho variando entre R$ 1.000,00 à 1.200,00 por veículo.
Parte da equipe optou por voltar de avião e a outra por voltar de balsa até Porto Velho e despachar os veículos. A Sandra retornou de Porto Velho para Curitiba, não acompanhando a Expedição para Manaus, devido principalmente a impedimentos pessoais devidos aos atrasos que tivemos no percurso. Ela retornou sozinha dirigindo o seu Troller até Curitiba tranquilamente. Eu (Felipe) retornei de avião. Embarquei às 16:00 hs e cheguei em Curitiba às 23:00 hs (considerando 2 horas de de diferença de fuso horário).
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